À luz do apagão

Autoria: Samuel Cruz
Departamento de Sistemas de Informação

Há cerca de três meses, um apagão inesperado mergulhou Portugal e de Espanha na escuridão — e não foi apenas figurada. Durante largas horas, ficámos sem eletricidade, sem aviso, sem previsão, sem respostas imediatas. O silêncio que se instalou nas casas contrastou com o zumbido ansioso das redes móveis a colapsar. E, ironicamente, foi nesse momento que muitos de nós voltámos a acender, não as luzes, mas a memória.

Foram milhares os que redescobriram, num armário ou numa gaveta esquecida, um velho rádio a pilhas. Pequeno, modesto, sobrevivente de outra era. Enquanto os smartphones se tornavam rapidamente em blocos inúteis de plástico e vidro, desligando-se um a um, foi esse rádio que voltou a ligar-nos ao mundo.

É curioso — quase poético — como a tecnologia mais simples, que há muito considerávamos obsoleta, foi aquela que nos deu resposta quando a mais avançada falhou. Este episódio trouxe-nos uma lição silenciosa mas poderosa: por mais digitalizados, conectados e modernos que sejamos, a base continua a ser frágil. A eletricidade, essa presença invisível que alimenta quase tudo à nossa volta, é também a nossa maior vulnerabilidade.

Vivemos tempos em que dependemos da energia não só para o conforto, mas para a comunicação, o trabalho, a segurança e até a saúde. Um apagão hoje não é apenas uma questão de falta de luz — é um desligar do mundo. E esse desligar é total, rápido e, como vimos, surpreendentemente possível.

O episódio serviu, portanto, de lembrete. E talvez de convite. Um convite à preparação mínima, ao bom senso, à consciência de que mesmo num mundo digital, é prudente manter um pé no analógico. Não se trata de alarmismo, mas de realismo.

Se há lições que podemos tirar daquele dia, é que não custa nada estarmos minimamente preparados. Para muitos, bastaria ter um pequeno conjunto de objetos simples para tornar a situação muito mais suportável. Ter, por exemplo, um rádio a pilhas ou de manivela revelou-se essencial para continuar a receber informações quando tudo o resto falhou. As pilhas sobressalentes, tantas vezes esquecidas, passaram a ter um valor renovado, e uma lanterna ou candeeiro portátil, idealmente com carregamento solar ou de manivela, tornou-se uma verdadeira dádiva em casas mergulhadas na escuridão.

Também um power bank carregado pode fazer a diferença, especialmente se tiver capacidade de recarregamento solar. E mesmo aquilo que já quase não usamos — como dinheiro vivo — ganhou nova importância, já que os terminais de pagamento deixaram de funcionar. Ter uma garrafa de água por perto, uma manta térmica guardada numa gaveta ou até uma pequena lista impressa com contactos importantes pode parecer excessivo em dias normais, mas revela-se essencial quando tudo o resto falha.

Mas talvez mais importante do que qualquer um destes objetos seja a preparação mental. Saber manter a calma, racionalizar o consumo de energia nos primeiros momentos do apagão e estar atento aos vizinhos pode ser o maior fator de resiliência. Porque quando a luz se apaga, é frequentemente na solidariedade entre pessoas que encontramos a verdadeira energia para continuar.